Aqui segue a segunda e última parte das minhas anotações na palestra do guru dos roteiristas Robert McKee na AIC, quarta feira a noite.
Ele deu uma visão geral do que era o gênero épico. Filmes épicos são aqueles que as consequências das ações afetam milhares de pessoas, até civilizações inteiras.
Depois começou a falar do significado de imagens, objetos, palavras do seu filme, eles tem sim que ser elevados, ter mais significado do que o simples literal, mas isso deve ficar no inconsciente da platéia, para as pessoas se envolverem com a história. Se você deixa um objeto cheio de símbolos e se a platéia percebe esses significados todos, o objeto simplesmente perde todo o sentido. É uma linha tênue entre o literal e o simbólico sem exageros para nenhum dos lados.
McKee diz que roteiristas não acreditam neles mesmos, já tem o preconceito de que diretores vão mudar suas histórias, atores vão distorcer ainda mais então não se dão ao trabalho de fazer um trabalho completo, competente. Ele quer dizer que o roteirista deve criar um sistema de imagens, assim quando o diretor pegar o roteiro para interpretar ele vai seguir exatamente a linha do roteirista, afinal as imagens estão claras. Não é para ficar descrevendo planos hein, é para descrever melhor lugares e situações de um jeito que não haja margem para dúvida.
O melhor é que ele diz que os diretores tem inveja dos roteiristas, afinal eles não conseguem criar nada, eles apenas interpretam o que já foi criado. Logicamente ele depois desse comentário ressaltou a importância de ter uma pessoa que interprete bem o seu roteiro na sua equipe, um bom diretor.
A diferença entre um bom filme e um ótimo filme é o diretor.
A diferença entre um bom filme e não ter filme nenhum é o roteirista.
Os diretores que querem escrever roteiros normalmente fazem adaptações de livros, o problema é que isso é muito difícil, afinal não dá para filmar pensamento.
Uma revelação interessante foi que ele acha curtas metragens de 10, 20 min no máximo muito mais difíceis de fazer do que longa. Se você consegue fazer bons curtas, o longa será literalmente apenas uma extenção natural.
E a melhor parte deixei para o final: Mckee afirma que não consegue detectar nada de realmente novo no cinema dos últimos 20 anos. Em compensação ele disse que as grandes inovações estão na TELEVISÃO com as séries, principalmente as da HBO como Sopranos, ele adora o Tony Soprano. Também deu o exemplo do Beleza Américana que ganhou 5 Oscas inclusive o de melhor roteirista para Alan Ball. Depois disso Holywood simplesmente rejeitou todos os outros roteiros que Alan Ball apresentou, acharam muito dark. A HBO deu carta branca e ele só criou a série Six Feet Under.
Talentos estão migrando para as séries de Tv que pelo jeito estão ousando cada vez mais e Hollywood está cada vez mais conservadora…
Por último Mckee disse que quando recebe um roteiro para ler ele não quer pensar em nada, quer apenar experienciar, imaginar a história sem ter que pensar em mais nada do começo ao fim.
Ficam aqui as lições do mestre, quem quiser ver ele falando (em inglês) aqui vai uma ótima palestra do McKee com transcrição indicada pela Ivana de um dos grupos de roteiro que participo.
10 Comments
Excelente post, Lucia! Fiquei sabendo desse encontro no AIC em cima da hora e não consegui comparecer, mas felizmente você foi
Vou recomendar a leitura do teu relato pro pessoal da oficina de roteiro que estou fazendo.
Muito legal seu post sobre o McKee. Sou professor de roteiros e justamente na aula do dia 13/05 eu conversei com alunos sobre o Mckee. Parabéns pelo blog!
Olá Marcelo, que pena que a gente não se encontrou. Foi bem legal lá. Valeu por indicar meu blog, fico muito feliz que você tenha aproveitado as minhas anotações.
bjo
Lucia
Rafael, obrigada pelo elogio. Sou bem fã do Mckee, acho que ele realmente é o guru dos roteiristas. Entendeu a fórmula como ninguém e a gente tem a sorte de ter um professor tão acessível em palestras, vídeos, audiobooks e no próprio livro Story.
Fico feliz que tenha gostado, volte sempre!
Lucia
Tô gostando de ver… rs. Bjs, Léo
Opa, você também dá o ar da graça por aqui? Que legal, venha e comente sempre!
Depois quero saber como foi a palestrona hein.
bjoo
Olá, Lucia, obrigada pelos posts, você acrescentou observações interessantes. Tenho a acrescentar que, conversando com agentes literários e pessoas ligadas a cinema fora do Brasil, o que mais me recomendaram é que “voltasse para o meu país e escrevesse e filmasse sobre o que acontece aqui, porque é um dos raros lugares no mundo que ainda faz parte do imaginário lúdico coletivo”. Estão interessados em ler livros e assistir filmes feitos aqui, com temáticas e músicas daqui. Pouca gente sabe, por exemplo, que Claude Lelouch adora vir ao Brasil e esteve no Festival de cinema amazônico para usufruir do prazer lúdico de nossos filmes. Também ouví muitas críticas ao fato de que pouco filmamos nossa história política, não levamos ainda para o cinema a catarse de períodos conflituosos ou nossa visão sobre a sociedade contemporânea de forma menos explícita do que a violência sanguinolenta.
abraços
Ivana, que bom que você gostou das observações. Realmente nunca imaginei que o Brasil fosse tão interessante para todo o mundo, a gente sempre acha que a grama do vizinho é mais verde. É só parar para pensar um pouco que faz muito sentido, afinal o Brasil é universal. Obrigada pelo comentário!
Abçs
Lucia
Ual, congrats pelo post!
opa obrigada!